Nos últimos tempos, a anestesia das dores e dos dias que se seguem "ao tem que ser" dos que da lei da morte se libertam (como diz o Roger), mantém-se. Estou a viver na margem de um não-sei-o-quê e nem-pra-quê. Mas a vida não se reclama, aceita-se. Talvez tenha nascido daí, o comodismo e o laisser passez. Assim, vai a vida interna em mim. Quanto à externa, não se compraz das minhas anestesias, nem mesmo quando, logicamente, me enfureço por achar que há um tempo pra tudo, eu que, também, acho desprezível esta dimensão de contagem dos segundos em eternidades, esta necessidade de rasgar as décadas e os séculos pra regularizar auxiliares de memória. No dia 26 de Outubro morreu uma amiga de sempre. E SEMPRE já não se pode dizer, passou a ser insignificante. Um sempre sem a minha eternidade que acompanhe a tomada de conversas em dia, a constatação de que fazemos parte da vida de outros e outros também compartilham de quem somos e contam connosco. Nem antever como crescerá a filha que verá no rosto dos outros o medo de soprar o nome materno, com medo que o castelo de areia vá ruir, de tão frágil.Ouvirá, bem mais tarde, falar nos seus olhos curiosos e enormes, na sua figura esbelta, na sua graciosidade de bailarina, na sua capacidade de sonhar tão ao jeito do melhor dos Peter Pans que conheci. Vi-lhe as primeiras brancas mas isso não se diz. No domingo anterior a se ter apagado, como uma vela apanhada entre uma corrente de ar de uma porta esquecida aberta, dizia-lhe a minha mãe que tinha madeixas bonitas. As madeixas eram as brancas. Esporádicas e pontuais numa farta e forte cabeleira castanha mel. Não lhe ouvirei ralhetes a propósito das minhas mais recentes asneiras. Nada, nada. Da sua mãe, receberei sempre o mesmo sorriso ou abraço quase chorado, dizendo que sou uma memória viva dela. Muitos natais passarão sem que o rosto se apague, porque ainda hoje a vi, aqui, do outro lado desta janela, junto à churrasqueira, rindo das travessuras dos animais e tentando não mancar, tentando não mexer nos medos disciplinados.
Morreu e morremos também, morreu e continuamos vivos, na espera de um sinal. Há-de conseguir espreitar por detrás do rosto da filha, diante de todos os animais que amava, espelhando-se por ela dentro, sem que ela possa sequer adivinhar que carrega a mãe até nos tiques. Fico a pensar se a morte é assim tão má! Nunca ninguém voltou. E o corpo atrapalha quando a missão que temos é voar. Era o caso.
No fim de semana que se seguiu às cerimónias fúnebres e da cremação (Claúdia está no mar), a filha veio com o pai passar o dia com o Tomás. Constatámos que havia um centro hípico desactivado em Penafiel, visitamos as crias do labrador Martim, almoçamos ao ar livre, andaram a pintar a manta os miudos e os adultos ficaram-se a trocar pensamentos, palavras e actos da "ida". Entretanto, encontrei estes animais pelo caminho, já entrou mais uma cria de labrador em minha casa que dá pelo nome de Lolita. Preta e com dois meses. E não, não é filha do Martim. Essas crias só terei acesso daqui a dois meses, pois estão no desmame.
Vagueio pelo presente em tons de incerteza, com esta dor de lado que me persegue há meses. Disse a um amigo de sempre, a quem abraçei de saudades, que este ano era o pior de sempre. Sinto que mais virá. E que nunca estamos preparados pra coisa nenhuma. Nunca será a hora certa de receber choques, de sofrer faltas, de perder. Perdi uma grande amiga. Ganhei um novo medo, o medo de desacreditar e o seu reverso. Porque ambos nos tiram o tapete e nos atiram para o chão. Como se fôssemos cacos de uma peça irrepetível e impossível do capricho d'Ele.
E Mia Couto sussurra este verso:
Horário do Fim
morre-se nada
quando chega a vez
é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos
morre-se tudo
quando não é o justo momento
e não é nunca
esse momento
in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
Ah mon dieu. Do album Virgin Maries of the world.
Merece o post e a atenção ao som.
- Location:Penafiel
- Mood:
crushed - Music:Ah Mon Dieu
- Location:Porto
- Music:Peter Gabriel, digging in the dirt
Inutilmente fútil
01
útil
é a
vida
e
sua
lida
lida
e
fútil
é a
poesia
02
poema
morto
(inútil
corpo)
sobre
branco
que já
foi vida
há quem
a viva?
03
nula
a
poesia
nada
cura
duvida?
vide
bula
foto de Lúcia Inês
- Location:Porto
- Mood:
calm - Music:In the Guetto
- Location:Penafiel
- Music:Influenza stirpe
o que lá vai já deu o que tinha a dar
quem ganhou ganhou e usou-se disso
quem perdeu há-de ter mais cartas p´ra dar
E enquanto alguns fazem figura
outros sucumbem á batota
chega a onde tu quiseres
mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada p´ra andar
a gente não vai parar
enquanto houver estrada p´ra andar
enquanto houver ventos e mar
a gente vai continuar
enquanto houver ventos e mar
todos náo pagamos por tudo o que usamos
o sistema é antigo e não poupa ninguém
somos todos escravos do que precisamos
reduz as necessidades se queres passar bem
que a dependência é uma besta
que dá cabo do desejo
a liberdade é uma maluca
que sabe quanto vale um beijo
- Location:Porto
- Mood:
exhausted - Music:A gente vai continuar
Tenho dez linhas
para dizer que te amo
as mesmas dez linhas que separam um poeta de um actor
um irmão de um irmão
sei que muito antes de me leres
vais saber que esta contagem decrescente
te pertence
agora já não tenho dez linhas
só me resta uma
a linha da vida para te amar.
(parte de prefácio do livro de poesia Baloiçar-te, de Carlos Peres Feio, poema este escrito por António Feio, irmão, amigo, actor, encenador e etc que conhecemos da televisão, do teatro, do cinema e dos movimentos culturais e artisticos por esse Tuga fora, altamente pessoal e peculiar)
- Location:Penafiel
- Mood:
contemplative - Music:as primeiras coisas eram verdes ou azuis
NÃO SE ESQUEÇAM DESTE E DE OUTROS CASOS, NA ALTURA EM QUE ESTIVEREM A VOTAR. DÊEM-LHES OUTRA MAIORIA ABSOLUTA, NÃO SE ESQUEÇAM
1. Sabem em que consiste a "manutenção" do site do ministério da justiça ?
Não ? Eu esclareço: trata-se de actualizar conteúdos, um trabalho que provavelmente muitas crianças fazem lá na escola ou em casa "com uma perna às costas". Por falar em "costas", acham que o ministro Costa pediu um puto qualquer para tratar do assunto ? Não ! Trata-se de uma tarefa altamente técnica, que justifica uma remuneração de 3.254,00 euros, mais o subsídio de almoço, claro !
2. E sabem quem tem o perfil adequado, a essa extremamente especializada função ?
Não ? Eu esclareço. Trata-se de Susana Isabel Costa Dutra. Susana Isabel Costa Dutra, é ( por um acaso daqueles que só acontecem em Portugal) filha do ministro Alberto Costa.
Se puderem, espalhem, pois pode haver alguém que não tem acesso ao Diário da República, ficando assim prejudicado de saber que "cá vamos, cantando e rindo, levados, levados sim...", pelo Partido SOCIALISTA!
- Location:Penafiel
- Mood:
enraged - Music:Zira, Rui Veloso
TORRESMOS À MACHIMBOMBO QUEIMADO
À partida o machimbombo parecia
um ónibus lotado de gente
em viagem.
Lá para o quilómetro 20 a oeste da Gorongosa
chaparia e respectivo tejadilho ficaram
fuliginoso similar de frigideira
fritando várias doses de torresmos
derivantes fósseis de passageiros
interrompidos antes da terminal.
Sobra este prosaico odor da sintomática
machimbombesca fotocópia de esquife.
O impaciente estardalhaço dos tiros
ainda por cima esfrangalhou o original."
in Babalaze das hienas
- Location:Penafiel
- Mood:
contemplative - Music:Belong, REM
Faça-se mais chão com as palavras dele!
O Lobo é um amigo de longa data.
Pinta, escreve prosa e poesia e já tem um livro editado: "No chão das palavras", editado pela Quasi.
Neste momento, dois dos seus trabalhos precisam de patrocínio. Sabemos muito bem, seja de forma a tocar-nos dentro, com experiências pessoais ou de amigos próximos, seja pelo conhecimento público que, os nossos artistas demoram a lhes ser reconhecido o talento e tal, muitas vezes, acontece só tardiamente. Tantos deles vão sendo reconhecidos internacionalmente e, podia citar mil nomes. Infelizmente, é característica nossa achar que os de fora são sempre melhores que os nossos artistas.
Assim, o apelo vai no sentido de poderem ajudar, em tempo útil, e de forma a que a Papiro Editora possa editar o livro: Tango com cheiro a Alecrim.
Precisa-se de 4 patrocinadores, empresa ou particular, que estejam dispostos a adquirir 50 exemplares do livro livro em apreço. Os respectivos patrocinadores terão 20% de desconto em cada Exemplar.
Se podes patrocinar, não te arrependes, pois usufruis de poesia e de pintura capaz de provocar os nossos sentidos mais avessos á comunicação e arte.
- Location:Porto
- Mood:
contemplative - Music:And she closed her eyes - Walkabouts
Olá gente!
Não descobri este site por acaso, assim como também não foi por acaso que deixei de escrever crónicas sobre acontecimentos sociais, políticos e económicos. Para quê escrever o que já foi escrito nos media? Aqui, neste site magnifico, podes ver, na íntegra, a que é que as capas dos jornais e revistas do dia dão destaque e destacares tu mesmo o que importa. A isso se chama selecção noticiosa ;)! Além disso podes, ainda, receber um resumo diário de imprensa logo pela manhã, para ficar a par da actualidade.
Eu já subscrevi e é muito útil. É gratuito.
Subscreve também e ainda te habilitas a ganhar um LCV TV Samsung de 32", ou noites gratuitas em hotéis.
O site é www.jornaiserevistas.com/?id=10006995.
Visita-o e subscreve o Resumo no topo da página. Vá lá, não dói nada e podes ajudar-me a ganhar material para o gabinete de Psicologia. Um plasma calhava bem na sala de espera, enquanto os que aguardam consulta não sintam ímpetos de ansiedade ou angústia . Se ainda estás indeciso, pensa bem. É só clicares e estás a ajudar, fazendo uma subscrição gratuita. Pleaaaase. Considero o pedido satisfeito mas, só saberei, se ganhar o plasma.
LOL
Abraço e alambuzamentos mutuos...
- Location:Porto
- Mood:
cheerful - Music:fingertips - Camel
Duas vozes, uma música, o chão pra nos amparar na queda!
Damien Rice e Lisa Hannigan nas antíteses. Cold water and volcano.
- Location:Porto
- Mood:
contemplative - Music:Cold water
No auditório Eunice Muñoz em Oeiras, no próximo dia 8 de Maio, pelas 21,30, Kirk Lightsey no piano, Sangoma Everett na bateria, Nelson Cascais no contrabaixo. Um programa extra, surpresa, será a presença de Maria Viana, e como convidada surpresa Maria Anadon.
Kirk Lightsey nasceu em Detroit em 15 de Fevereiro , 1937. Com o apoio da família , começou os estudos com Johnston Flanagan .Teve depois Glady's Wade Dillard, professora entre outros de Barry Harris, Alice McCloud e Tommy Flanagan. Na Cass Technical High School, Hugh Lawson e Paul Chambers apresentaram Kirk ao jazz e, juntos, tocaram na orquestra que incluía Ron Carter e Kiane Zawadi. Em 1954 Lightsey ganhou uma bolsa de estudo para clarineta na Universidade Wayne mas, aos 18 anos optou por tornar-se profissional. Nesta altura Lightsey também trabalhou com Yusef Lateef, Melba Liston e Ernestine Anderson. Depois de cumprida a recruta ( 1960 ) regressou a Detroit e formou um dueto com Cecil McBee. Nessa época, Kirk também tocou para a Motown e arranjou tempo para estudar com o pianista clássico Boris Maximovich , sendo , no entanto primordialmente influenciado pelos mestres Hank Jones e Tommy Flannagan. Kirk Lightsey define-se como " pianista de Detroit incorporando a "...iluminação de Bud Powell , o estilo de Art Tatum e um sentimento bebop ."
- Location:Penafiel
- Music:Just friends, Maria Viana
Porta com porta. A abundância, o estragar de alimentos, o abusar da sorte, na porta do lado, a fome, a convivência clara com a abstinência e escassez de alimentos essenciais. Não é filme mas também há filmes sobre isso. Este chicken á la carte ganhou um ciclo de cinema, contrastando os KFC's, os Jolibee e MacDonalds com os bairros da pobreza minada, os guettos da privacidade humana. O outro lado de nós em apuros...
Bom fim de semana.
- Location:World
- Music:and she closed her eyes
É um caminho indirecto da poesia e vem a 3 vozes. Na página da Mercedes, encontramos o link oficial. Acho que todos merecemos caminhos assim!
Talvez vós devesseis ouvir este trabalho!
Era uma vez um velho esquimó que se chamava Eternidade. Um dia, estava ele dormindo e, tinha um sonho em que chorava convulsivamente. No dia seguinte, quando acordou, nas suas mãos corria um fio de água; ele soprou nos dedos e nasceu um profundo rio. Eternidade sentiu que o rio se sentia sozinho, então abriu a boca e sobre aquelas águas caíram diferentes espécies de peixes que, dançando no corpo do rio, projectavam uma luz para o espaço e, de repente, se criava o céu, as estrelas, o sol, a lua, as nuvens. Eternidade beijou-as e logo se transformavam em chuva, Eternidade pegou nalgumas gotas e pensou fazer o homem: com as gotas fez os olhos, depois olhou dentro daqueles olhos e sentiu que neles faltava poesia, pegou numa gota que havia dentro dos olhos atirou-a para o chão e nasceu uma árvore. Eternidade pensou: - Vou cortar um pouco da sua madeira e fazer uma escultura e fez a mulher. Perguntou eternidade aquela mulher se ela lhe podia dar o sorriso dos seus lábios para completar o homem. De repente eternidade tinha uma dúvida. Devo criar uma criatura alegre ou uma criatura triste? Estava ele com estes pensamentos quando começou afazer movimentos com os braços e viu ele um animal que rastejava. Serpente que era o nome do bicho quando esta enfiava a cabeça na terra, isso era a tristeza do homem, quando levantava a cabeça para o céu, isso era a tristeza dele, contudo eternidade sentia que faltava algo; olhou o sol e pediu-lhe um pouco de fogo e levou esse fogo para dentro do homem que começava a sentir-se estranho, assim feliz e triste, parece que nele despertava um sentimento que agora conhecemos como paixão. O homem olhou eternidade e olhou a mulher e perguntou, com a linguagem do silêncio, como poderia expressar aquela sua emoção? Eternidade pegou na raiz da árvore com que esculpira a mulher e colocou aquela raiz na garganta do homem e logo estava ele possuído pelo dom da palavra. A mulher chegou perto dele e bebeu um pouco do som dos lábios do homem e tinha dentro dela uma palavra que não era do homem, nem era de outro bicho qualquer, nem era dentro das flores e era, no entanto, uma palavra universal. A mulher soletrou como se entoasse uma música a palavra amor.
Eternidade, o esquimó da criação que muitos julgam que não dorme, pediu ao homem que lhe contasse uma história para adormecer um Deus. O homem mais uma vez pediu a Eternidade que olhasse dentro dos seus olhos e Eternidade escutou o vento que sabia histórias de pastores e de guerreiros e sabia todo o mistério que havia nas palavras do homem e com o frio das palavras dele criou um continente. Eternidade olhou aquele lugar e disse: vou cantar para me aquecer e logo ao lado tinha outro continente quente e selvagem e eternidade estava aprendendo que um Deus não sabe tudo, ele estava descobrindo coisas sobre geografia. Virou a sua cabeça para a direita e era dia ou voltava a sua cabeça para a esquerda e era noite.
Eternidade caminhou em direcção á água do rio, deitou-se sobre as suas águas e na margem estavam o homem e a mulher, depois chegaram outros homens e outras mulheres, chegaram outros contadores de histórias tão bons que fazem adormecer a criação, que até eternidade se esquece das coisas que criou.
O Tribunal de Sevilha condenou uma mãe pelo 'laxismo e tolerância' que provocou a atitude violenta do seu educando.
O Tribunal de Sevilha condenou uma mulher ao pagamento de uma multa de 14.000 euros por causa de uma agressão do seu filho ocorrida no Instituto de Secundaria em que anda a estudar. O tribunal considerou que o 'laxismo e tolerância' da mulher na educação do menor é que motivaram o comportamento violento do adolescente.
A multa servirá para pagar o tratamento de reconstituição dos dentes do outro menor, colega no Instituto Castilla de Castilleja de la Cuesta, Sevilha. Durante o julgamento, a mulher tentou atribuir a responsabilidade ao centro educativo por não ter executado as 'tarefas suficientes de vigilância' sobre os alunos, mas a sentença ajuizou que os adolescentes não necessitam de uma vigilância tão rígida, antes que 'a brutalidade e intensidade' da agressão evidenciam 'uma falta de comunicação ou assimilação de educação e a moderação de costumes no agressor para uma convivência assente em valores'.
O Tribunal confirma assim a primeira decisão judicial que referia uma 'educação incorrecta ', que os juízos comparam com aquelas situações em que os progenitores 'permitem ou não se preocupam em controlar os seus filhos para que não levem para as escolas objectos que possam tornar-se, por si mesmos, perigosos'.
Não é para Contar uma Estória que tu Escreves
Não é para contar uma estória que tu escreves
e eu pinto
nem para nos apontarem a dedo que limamos
o bico aos pregos no avesso do mundo, nem a terra
é o centro deste. O universo não usa
adereços de cena
nem liga a espelhos. Tem mais que fazer
que nos copiar e tão-pouco ao fado pois ele é
velho, não tem dentes, e tresanda
ao ranço de uma açorda
salgada e sem coentros.
in Tratadoditoefeito
Parece que quando nascemos, já nascemos com pressa, a correr. A nossa consciência ainda não está lá, devido ao impacto do nascimento mas a lufa lufa de um nascimento é stressante pra todos os intervenientes. No fim, as coisas passam-se mais devagar, como se pudessemos adiar a partida do outro e, simultaneamente, mantermos a morte mais distante de nós. Que isto de morrer é tudo menos divertido! Crescemos e na medida do nosso desenvolvimento, vamos valorizando, de acordo com a faxa etária que podemos padronizar por, atitudes semelhantes, formas de respirar quase iguais, gostos e hobbies comuns. Da infância dos legos e dos puzzles, da sopa obrigatória e das sestas pós almoço, das bonecas e das descobertas primeiras ao inicio da segunda idade, em que todos sequiosos destruímos bonecos, rádios e aparelhos diversos pra ver de que são feitos e montar tudo outra vez, dos desafios de atravessar o nosso jardim pra rua do nosso amigo, sem o não dos adultos, vestimos e despimos roupas dos pais, calçamos os tacões e desejamos chegar rápido aos 18, a idade de emancipação, onde podemos dizer aos progenitores: Lá prá meia noite volto, não esperem por mim. Aos 30 cheios de projectos de casa nova e mudança de carro, dos filhos que se sucedem ou não, dos ppr's e dos cultivos, dos filmes e dos bons livros, da serenidade e de saborear um momento com a qualidade que merecemos dele. Enfim, a vida correu porque o espelho desmonta qualquer dúvida que pudessemos ter ainda e a gravidade é como o algodão - não engana. Com saúde ou sem ela, todos ansiamos imortalidade, porque afinal, iríamos ser diferentes de milhões de semelhantes e de anos, de não-sei-quantas civilizações anteriores, de expectativas humanas?
Quando a doença nos "apanha", seja crónica ou temporária, definitiva e terminal ou sem critérios pra definição ou diagnóstico, damos conta que a vida se estreita num canal, a velocidade diminui e chega a parar, os alarmes da consciência de perda disparam aflitivos e nós temos medo. Não será tanto o medo de morrer mas o receio maior do desconhecido, do depois, além ou seja lá o que vier. Tendemos, nesta altura, a apreciar tudo de uma forma mais completa, mais inteira, a essa maturidade da idade ou da consciência, a maturidade das experiências ou o limite imposto pela falta da saúde, a essa maturidade ficamos a dever olhar as coisas com olhos de ver, com a sensibilidade de quem vê pela primeira vez alguma coisa e, simultaneamente, com a qualidade de quem possa estar a fazê-lo pela última vez.. As perspectivas brotam aos pares, a tolerância cresce de acordo e os outros passam a ser tidos como pequenas extensões ou núcleos ao qual pertencemos e aprendemos a amar. Chegamos a olhar a humanidade e enxergar os defeitos e ainda assim, sentir ternura por ela. E valorizamos o pôr do sol ou o seu nascimento diário, as cores e a fertilidade da natureza, as pedras e os rios, os animais e as crianças dentros dos seus próprios mundos e tudo faz sentido encaixado no nosso mundo. Temos noção do lugar que ainda é nosso e começamos a ocupá-lo com prazer, a saber partilhar e a prezar todas as relações desde as mais superficiais a todas as outras que nos envolvem e nos dimensionam á nossa realidade. Do já que é a vida a acontecer no instante. E o tempo, esse peso pesado que é o século ou o dia de 24 horas, passa a ser apenas um contador de momentos gratificantes que dele soubemos habilidosamente espremer. E aí, qualquer ambição desmedida, qualquer megalomania engordada, qualquer futilidade cultivada mirra, seca e morre, como se nunca tivesse existido.
Todos conhecemos casos de vida, próximos ou menos próximos, mediáticos ou vividos na ignorância ou solidão total, de seres que desaparecem, que nos tocaram, que nos melhoraram como seres humanos, que nos dignificaram, que nos mostraram em algum momento de que somos realmente feitos diante do limite imposto pela nossa impotência biológica. E somos super-homens de barro, esfinges de um astro apagado. Ainda assim, tochas vivas de memórias que sempre farão parte da história feita de nós.
Conclusões: Barro e pó. Viver vai valer sempre a pena, ainda que só mais um segundo. E nesse segundo atingir o nirvana da vida, provocar nirvanas na vida alheia. Porque não partir quando é chegada a hora? Quem recusa partir quando viveu de acordo com o seu ritmo? Porque raio valorizamos a qualidade da nossa existência apenas quando amadurecemos ou quando nos espetam um ultimatum? E depois, morrer pode ser uma segunda oportunidade, um interregno entre o antes e o depois, entre uma coisa e outra. E se não somos capazes de antecipar, prever ou adivinhar o depois, o que nos importa passa a ser agora. Pra quê complicar? Estão dispensados do meu funeral, já da minha vida não vos dispenso!
foto do mano, sobrinha e filho

Confissão
De um e outro lado do que sou,da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.
in "Meditação sobre Ruínas"


